
Durante muito tempo, treinavam-se os cães à base de puxões na trela, gritos e da ideia de que era preciso "dominar" o animal. Hoje sabemos que eles aprendem muito melhor, e são bem mais felizes, quando os ensinamos com recompensas em vez de medo. É esta a base do treino canino em positivo, e a sua principal ferramenta é o reforço positivo. Este guia explica o que é mesmo o reforço positivo, como funciona e como aplicá-lo passo a passo para educar o teu cão da forma mais eficaz e respeitosa.
O que é o reforço positivo?
O reforço positivo é uma ferramenta do condicionamento operante, mas a ideia é de uma simplicidade desarmante: acrescentas algo de que o cão gosta logo a seguir a um comportamento, para que esse comportamento se repita mais vezes. Dito de outra forma, se o teu cão recebe um petisco sempre que se senta, vai optar por sentar-se mais.
É um dos quatro quadrantes da aprendizagem, mas é, de longe, o que dá os melhores resultados a longo prazo. Em vez de se concentrar em castigar aquilo que o cão faz mal, o treino em positivo recompensa o que ele faz bem. Assim, o teu cão começa a ver em ti um colega de equipa e não um juiz, e alinha de boa vontade e sem stress.
Reforçar em positivo não é permitir tudo nem encher o cão de petiscos a esmo. É escolher de propósito que comportamentos queres ver mais vezes e recompensá-los no momento certo, gerindo ao mesmo tempo o ambiente para que os erros sejam pouco prováveis logo à partida.
Porque funciona melhor do que os métodos tradicionais
A ciência do comportamento é clara, e é por isso que o treino baseado em recompensas é hoje o recomendado pelos treinadores profissionais e pelas principais organizações caninas.
- Aprende mais depressa. Um cão que treina sem medo concentra-se melhor e arrisca comportamentos novos em vez de bloquear.
- Um vínculo mais forte. Passas a ser a fonte das coisas boas em vez de algo a evitar, e essa confiança nota-se em cada passeio.
- Sem efeitos secundários desagradáveis. Os métodos baseados no castigo podem criar medo, ansiedade e até agressividade. O reforço positivo não.
- Serve para a vida toda. Funciona igualmente bem com um cachorro, com um cão adulto ou com um cão idoso.
Como aplicar o reforço positivo passo a passo
A ideia é simples, mas são os pormenores que separam um cão que percebe de um cão que se frustra.
1Escolhe uma recompensa que motive a sério

Nem todas as recompensas valem o mesmo aos olhos do teu cão. Experimenta pedacinhos de comida saborosa, o brinquedo preferido, ou elogios e voz animada, e repara no que lhe ilumina mesmo o olhar. Em sítios com distrações, vais precisar das recompensas de maior valor.
2Recompensa no momento exato
A recompensa tem de chegar no instante em que o teu cão faz a coisa certa, não dez segundos depois. Se recompensas tarde, estás a ensinar outra coisa completamente diferente. O timing é quase tudo.
3Acrescenta um marcador

Uma palavra curta como "sim" ou o som de um clicker deixa-te tirar uma fotografia do momento exato do acerto e dar a recompensa logo a seguir. O marcador é um reforçador secundário: não vale por si só, vale pela soma de todas as vezes que o associaste a algo bom. Diz ao teu cão, com precisão, qual foi o comportamento que mereceu a recompensa, e acelera imenso a aprendizagem.
4Treina em sessões curtas e frequentes
Várias sessões de dois ou três minutos ao longo do dia rendem mais do que uma única sessão longa e aborrecida. Termina sempre com um acerto fácil, para o teu cão ficar a querer mais.
5Retira as recompensas de comida aos poucos
Assim que um comportamento estiver sólido, começa a recompensar de forma intermitente e vai trocando parte da comida por brincadeira, elogios ou simplesmente continuar o passeio. O comportamento mantém-se, os petiscos vão rareando.
Porque é que o meu cão só obedece quando vê o petisco?
Esta é a queixa mais comum sobre o treino em positivo, e quase sempre tem a mesma origem: a recompensa andou demasiado à mostra na tua mão, e o cão aprendeu a depender dessa pista em vez do comportamento. A solução é o reforço variável. Mantém o petisco fora da vista (num bolso ou numa bolsa de petiscos), pede o comportamento e só depois recompensa, variando tanto aquilo que dás (umas vezes comida, outras brincadeira, outras uma festa) como a frequência. Quando o cão não consegue adivinhar se vem ou não recompensa, deixa de "trabalhar pela comida que vê" e passa a responder à deixa.
Erros comuns
Mesmo com a melhor das intenções, é fácil tropeçar sempre nas mesmas pedras.
- Recompensar tarde, fazendo com que o cão associe a recompensa ao comportamento errado.
- Repetir a ordem vezes sem conta ("senta, senta, senta") em vez de a dizer uma vez e esperar.
- Subir a dificuldade depressa de mais, exigindo concentração num parque movimentado antes de o comportamento estar sólido numa divisão calma.
- Recompensas sem valor para aquele cão naquele momento, o que arrefece a sessão num instante.
Treino em positivo versus métodos tradicionais
Não há assim tanto tempo, o treino canino girava todo à volta da "dominância". Os métodos aversivos tentam travar um comportamento acrescentando algo desagradável ou tirando algo de que o cão gosta. O problema é que o cão obedece por medo, sem perceber o que se espera dele, e com o tempo aparecem o stress, a ansiedade ou até a agressividade, e ainda um vínculo estragado. O treino em positivo quer precisamente o contrário: um cão que percebe, coopera e confia. O resultado é uma aprendizagem mais duradoura e uma convivência muito mais descansada.
Quando dar o passo para uma aula
Podes começar a aplicar o reforço positivo em casa ainda hoje, mas uma aula de obediência em positivo acelera os resultados. Um bom treinador acerta-te o timing, ensina-te a subir a dificuldade sem frustrar o teu cão e trabalha a obediência perto de distrações a sério, algo quase impossível de recriar na tua sala. E se aparecerem problemas mais graves (agressividade, ansiedade de separação, medos profundos ou um cão recém-adotado com um passado difícil), um profissional é o melhor investimento que podes fazer.
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Treinar em positivo não é ser permissivo, é ser claro e justo. Quando o teu cão percebe que portar-se bem traz coisas boas, deixa de obedecer por medo e começa a cooperar por vontade própria. E é essa mudança, a de um cão que quer acertar, que transforma o treino numa das melhores partes de viver com um cão.





