
Se tens as mãos e os tornozelos cheios de marcas de dentes, respira fundo: não estás a fazer nada de errado e o teu cachorro não se está a tornar agressivo. Mordiscar e morder é a forma que os cachorros têm de explorar o mundo e de brincar, e quase todos os donos de primeira viagem acabam por escrever no Google qualquer versão de "o meu cachorro não para de me morder, já tentei tudo". A boa notícia é que esta é uma das fases mais previsíveis e mais fáceis de resolver dos primeiros meses. Vamos ver porque é que o teu cachorro continua a morder-te, a que idade a fase passa sozinha e quais os passos suaves e comprovados que ensinam uma boca mole para a vida toda.
Porque é que o meu cachorro continua a morder-me?
Morder é um comportamento normal e saudável no cachorro, mesmo quando dói. Compreender os motivos por trás disto torna tudo o que se segue mais fácil.
- Brincadeira e exploração. Os cachorros não têm mãos, por isso é com a boca que investigam tudo e brincam. Entre irmãos da mesma ninhada, morder é a brincadeira por excelência.
- Um corpo que ainda não acompanha a cabeça. Nos primeiros meses o sistema nervoso do cachorro ainda se está a formar, por isso o controlo da boca anda bastante atrás da vontade de morder. Aquelas dentadas desastradas e exageradas são, em parte, um cérebro ainda em obras.
- Mudança de dentes. Mais ou menos entre os três e os seis meses, os dentes de leite afiados dão lugar aos definitivos, e mastigar alivia as gengivas doridas.
- Aprender a inibição da mordida. Quando os cachorros brincam às dentadas uns com os outros, uma mordidela demasiado forte põe fim à brincadeira. É assim que aprendem a medir a força da boca, uma competência que vale bem a pena continuar a treinar.
- Cansaço a mais. Este é o grande motivo que passa ao lado dos donos. Um cachorro esgotado, tal como uma criança pequena exausta, fica descontrolado, frenético e com a boca à solta. Muitas crises de mordidas "agressivas" são, no fundo, um cachorro cheio de sono a pedir desesperadamente uma soneca.
Um cachorro que morde com mais força ao fim do dia ou depois de uma longa brincadeira, regra geral, não se está a portar mal. Está sobre-estimulado e exausto. Antes de partires do princípio de que é um problema de treino, experimenta obrigá-lo a descansar.
Quando é que as mordidelas do cachorro param?
As mordidelas chegam ao pico durante a muda de dentes e depois vão acalmando à medida que os dentes definitivos assentam e o teu treino faz efeito, normalmente lá para os seis ou sete meses. Saber mais ou menos em que fase anda o teu cachorro ajuda, tanto para a tua paz de espírito como para os teus móveis.
| Idade | O que se passa na boca | Como são as mordidelas |
|---|---|---|
| 0 a 3 semanas | Ainda sem dentes | Sem mordidas de brincadeira |
| 3 a 6 semanas | Surgem os dentes de leite (28 às 6 semanas) | Começam as mordidas de brincadeira e de exploração |
| 6 a 12 semanas | Dentição de leite completa | As mordidas atingem o pico enquanto aprendem limites |
| 12 a 16 semanas | Caem os dentes de leite, nascem os definitivos | Mastigar e mordiscar intensificam-se (gengivas mais doridas) |
| 16 a 24 semanas | Os dentes definitivos assentam (42 no total) | As mordidas diminuem, normalmente resolvidas aos 6 a 7 meses |
É a consistência que encurta este percurso. Os passos a seguir são o que te leva de "morde a toda a hora" a "morde de vez em quando" e, por fim, a "deixou de morder".
Como travar as mordidelas do teu cachorro, passo a passo
O objetivo não é castigar as mordidas, é ensinar ao teu cachorro duas coisas ao mesmo tempo: que a pele humana é delicada e que há saídas muito melhores para aquela boca.
1Ganir e parar no instante em que os dentes tocam na pele
Quando o teu cachorro morder com demasiada força, solta um "ai" agudo e interrompe logo qualquer movimento ou brincadeira durante uns segundos. É exatamente o que um irmão de ninhada faria, e passa uma mensagem clara: as mordidas acabam com a diversão. Mantém-te calmo.
2Redirecionar para algo que ele pode morder

Logo a seguir à pausa, oferece um mordedor ou um brinquedo de puxar à altura. Não estás só a travar um comportamento, estás a responder à pergunta "então e o que é que eu posso morder?". Deixa um brinquedo em cada divisão para teres sempre a troca à mão, sobretudo naquelas corridas malucas do fim do dia. Mordedores frescos ou que vão ao congelador são uma ajuda e tanto enquanto as gengivas andam doridas.
3Recompensar os momentos calmos e suaves
É fácil reagir só quando os dentes estão à mostra. Inverte a lógica. Quando o teu cachorro lambe em vez de morder, ou pega num brinquedo por iniciativa própria, marca o momento com elogios ou um petisco. Os cães repetem aquilo que lhes dá recompensa, por isso apanha-os em flagrante a portarem-se bem.
4Proteger o sono do teu cachorro
Cria uma rotina previsível, com sonecas frequentes num cantinho sossegado ou na caixa de transporte. Um cachorro desta idade pode precisar de dezasseis a dezoito horas de sono por dia. Obrigá-lo a descansar antes de chegar ao limite evita a maioria das piores mordidas antes sequer de começarem.
5Nunca usar as mãos como brinquedos
Andar à luta e abanar os dedos parece divertido, mas ensina ao teu cachorro que as mãos são presa fácil para mastigar. Brinca sempre através de um brinquedo, para que fique uma fronteira clara e coerente entre "mão" e "morde isto".
Socorro, o meu cachorro continua a morder-me com agressividade e já tentei tudo
Se parece que nada resulta, é quase sempre por uma destas razões, e não por o método ter falhado.
- O cachorro está demasiado cansado. Vale a pena repetir, porque é a causa mais comum das mordidas frenéticas e fortes. Mete mais descanso na rotina.
- O teu ganido está a sair-te o tiro pela culatra. Há cachorros que tratam um "ai" alto como um brinquedo que apita e ficam ainda mais excitados. Se é o caso do teu, larga o ganido de vez: fica calado, levanta-te, afasta os braços ou sai do campo de visão por um instante. A mensagem é a mesma, acaba-se a diversão.
- Não há nenhuma saída aceitável. Um cachorro com energia e sem nada para morder vai morder-te a ti. Acrescenta mais mordedores, jogos de faro e sessões curtas de treino.
- Faltou socialização. Os cachorros criados sem irmãos de ninhada saltaram muitas vezes aquele travão natural do "demasiado forte", por isso arma-te de paciência e apoia-te em cães adultos calmos e vacinados, que são professores e pêras, para darem o exemplo de uma brincadeira suave.
- Cada um faz à sua maneira. Se uma pessoa anda à luta e outra redireciona, o teu cachorro nunca chega a perceber a regra. Põe a casa toda de acordo.
A verdadeira agressividade em cachorros é rara, mas para tudo e procura ajuda se as mordidas vierem com o corpo tenso, um olhar fixo e duro, rosnados sobre comida ou objetos, ou se parecerem vir do medo e não da brincadeira. Mete também o teu veterinário ao corrente se as mordidas vierem com apatia, recusa em comer, ou se o teu cachorro esfregar a boca com a pata ou se encolher quando lha tocam, porque a dor também leva a mordiscar. Um treinador qualificado ou o teu veterinário resolvem isto cedo, que é quando é mais fácil.
Transforma a fase das mordidas num avanço

A inibição da mordida é uma das lições mais valiosas que o teu cão vai aprender na vida, e uma aula estruturada para cachorros é o sítio perfeito para a treinar. Nas aulas de socialização o teu cachorro brinca com outros, aprende com o dar e receber natural da brincadeira entre cães e ganha confiança durante aquelas primeiras semanas decisivas, tudo debaixo do olho de um instrutor.
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Aguenta firme. A fase dos dentinhos afiados parece não ter fim quando estamos no meio dela, mas com prática calma e consistente passa depressa, e o cão adulto tranquilo e de boca mole que aparece do outro lado compensa bem as poucas semanas de paciência.





